Em Alagoas, existe uma narrativa construída há anos: a de que o grupo dos Calheiros representa a esquerda no estado.

Mas basta olhar os fatos para perceber que o discurso vai para um lado e a prática segue para outro.

Se esquerda significa fortalecer o serviço público, defender o patrimônio coletivo e priorizar políticas populares, como explicar a privatização da água durante a gestão de Renan Filho?

A concessão da Casal foi vendida como modernização, mas para muita gente o resultado foi aumento de reclamações, dificuldade no abastecimento e a sensação de que um direito básico virou negócio.

Tem algo mais de direita do que privatizar a água?

E não para por aí.

Alfredo Gaspar não surgiu por acaso. Ele nasceu de um projeto político de Renan Filho, que apostou em uma política de segurança baseada no espetáculo e no discurso de força.

Seu crescimento veio com o endurecimento penal e com uma lógica que sempre atingiu primeiro o preto, o pobre e o favelado, vendendo repressão como solução e transformando medo em capital político.

Tem algo mais distante da esquerda do que isso?

Também foi nesse arranjo que nomes como Breno Albuquerque e Marco Barbosa ganharam espaço no PT de Alagoas, fortalecendo um acordo de poder que muitos militantes enxergam como aparelhamento, não como construção ideológica.

Agora, a chapa apoiada pelo governo e pelos Calheiros pode deixar Paulão fora da Câmara dos Deputados, justamente uma das maiores vozes da esquerda popular no estado.

Enquanto vendem o discurso da defesa da esquerda, enfraquecem quem realmente representa esse campo.

A estratégia é simples: desidratar partidos de esquerda, transformar legendas em puxadinhos e concentrar poder.

No fim, fica a pergunta: quem representa a esquerda em Alagoas? Quem defende serviço público, trabalhadores e independência política? Ou quem usa esse rótulo apenas para manter poder?

Talvez a maior mentira política de Alagoas seja fazer o eleitor acreditar que coronelismo com nova embalagem ainda pode ser chamado de projeto progressista.