Uma sentença proferida anos atrás pelo juiz federal Francisco Guerrera Neto voltou a ganhar significado nesta semana, durante um reencontro marcado pela emoção e pela gratidão. O magistrado recebeu, em seu gabinete na 6ª Vara Federal, em Maceió, a advogada Janieli Gomes, filha de um agricultor de Dois Riachos, no Sertão de Alagoas, cuja história inspirou uma decisão judicial que ultrapassou os limites do processo.

O caso remonta ao período em que Francisco Guerrera Neto atuava na 11ª Vara Federal, em Santana do Ipanema. Na ocasião, ele julgava o pedido de aposentadoria rural de um agricultor de Dois Riachos. Durante a audiência, soube que o trabalhador havia viajado até São Paulo para participar da formatura da filha em Direito.

A jovem havia ajudado os pais na roça durante toda a infância e adolescência. Ainda muito nova, deixou o Sertão para trabalhar como manicure em São Paulo, custeando os próprios estudos até conquistar o diploma de Direito.

Ao conceder a aposentadoria rural, o juiz decidiu registrar, na própria sentença, uma homenagem ao agricultor. No texto, destacou o mérito de um lavrador sertanejo que, em meio às dificuldades e ao trabalho árduo, conseguiu proporcionar à filha a oportunidade de estudar e construir uma nova trajetória. Também ressaltou a educação como instrumento de transformação social e desejou sucesso à recém-formada, lembrando que outra mulher de Dois Riachos já havia levado o nome da cidade ao mundo: a jogadora Marta.

Anos depois, aquela estudante tornou-se a advogada Janieli Gomes. Aprovada no exame da OAB, ela atualmente atua em um grande escritório de advocacia em São Paulo. Durante uma visita aos pais, aproveitou a passagem por Alagoas para procurar o magistrado e agradecer pessoalmente pelo gesto que jamais esqueceu.

Em uma publicação sobre o reencontro, Janieli compartilhou o significado daquele momento.

 "Sou filha de agricultor. Sou do Sertão. Sou de Dois Riachos, Alagoas. E cada conquista que alcanço carrega o suor dos meus pais, os sacrifícios que fizeram por mim e a fé que nunca permitiu que desistíssemos."

Ela contou ainda que guarda a sentença impressa até hoje e agradeceu ao juiz "por ter me mostrado que a Justiça também pode ser feita com sensibilidade, respeito e humanidade."

O reencontro também levou o magistrado a refletir sobre o alcance das decisões judiciais que, muitas vezes, passam longe dos grandes holofotes.

 "É nos casos mais discretos, longe das manchetes, que a Justiça cumpre a parte mais silenciosa do que lhe cabe: reconhecer o direito de quem quase nunca é ouvido e lembrar que existe um lugar onde a sua história importa. Nós, juízes, por vezes não percebemos, numa audiência, o alcance do que ali se decide. Talvez histórias como a dela e de seu pai existam para nos lembrar disso", afirmou Francisco Guerrera Neto.

O reencontro entre o juiz e a advogada mostrou que algumas decisões ultrapassam o papel. A aposentadoria garantiu um direito ao agricultor, mas as palavras registradas naquela sentença permaneceram vivas ao longo dos anos. Para Janieli, elas se tornaram uma lembrança permanente da trajetória da família. Para o magistrado, o reencontro confirmou que, às vezes, um gesto de sensibilidade também pode marcar a vida de quem passa pela Justiça.