Declarações defendendo restrições ao voto feminino voltaram a ganhar espaço nas redes sociais e provocaram forte repercussão nas últimas semanas. As falas, feitas por influenciadores ligados à extrema-direita, reacenderam um debate que parecia superado desde a conquista do sufrágio feminino no Brasil.

Um dos episódios de maior repercussão envolveu o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo. Em um vídeo publicado nas redes, ele afirmou que "mulheres votam estatisticamente muito mal", especialmente as solteiras, e declarou que mulheres casadas tendem a acompanhar o voto dos maridos. 

Poucos dias depois, a influenciadora Pietra Bertolazzi também virou alvo de críticas ao declarar ser contra o voto feminino durante um vídeo de perguntas e respostas publicado em suas redes sociais. 

Essas manifestações não surgem de forma isolada. Reportagens apontam que argumentos semelhantes têm circulado em grupos conservadores nos Estados Unidos, onde setores ligados ao trumpismo passaram a defender restrições ao voto feminino e a questionar a 19ª Emenda da Constituição americana, responsável por garantir o sufrágio às mulheres. 

Durante entrevista, o influenciador americano de extrema direita Nick Fuentes afirmou que, se tivesse o poder, retiraria o direito ao voto de diversos grupos, incluindo as mulheres. Declarações semelhantes também ganharam repercussão com influenciadoras conservadoras como Savanna Faith Stone, que defendeu a ideia de um voto por família, exercido pelo marido.

No Brasil, o direito ao voto das mulheres foi reconhecido pelo Código Eleitoral de 1932, resultado de décadas de mobilização do movimento sufragista, e posteriormente reafirmado pela Constituição Federal de 1988. Desde então, homens e mulheres possuem igualdade de direitos no exercício da cidadania e da participação política.

A retomada de discursos que defendem restrições ao voto feminino ocorre em um contexto em que as mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro e, em média, demonstram maior identificação com pautas sociais e de igualdade. Um levantamento da Fundação Friedrich Ebert (FES), divulgado em 2024, mostrou que 20% das mulheres jovens se identificam com a esquerda, contra 16% dos homens da mesma faixa etária. O estudo também aponta uma menor identificação feminina com posições conservadoras.

O cenário ajuda a explicar por que o comportamento eleitoral das mulheres passou a ocupar espaço no debate político, sobretudo após a ascensão e radicalização da extrema direita, no Brasil e no mundo.