Relator da comissão que investiga um dos maiores golpes contra aposentados do país, Alfredo Gaspar some do debate justo quando o foco sai da esquerda e encosta no campo religioso conservador. Enquanto Damares Alves e Silas Malafaia trocam acusações em público e expõem fissuras dentro do próprio grupo político, o deputado alagoano opta pelo silêncio. Estranho não apenas pela ausência, mas pelo contraste que ela revela.

Com todo o respeito, Gaspar sempre fez questão de ocupar o papel de paladino da moralidade. Rápido no verbo, duro no tom e sempre disponível para os holofotes quando as investigações miram adversários ideológicos. Moralidade, transparência e rigor viram discurso padrão. O script é conhecido.

Mas basta o escândalo envolver aliados, lideranças religiosas ou personagens que orbitam o mesmo campo político para a urgência desaparecer.

A CPMI do INSS não trata de detalhe menor. Fala de dinheiro público desviado, de aposentados lesados e de um esquema que exige firmeza de quem relata. Ainda assim, diante do embate que envolve igrejas e figuras influentes da direita, o relator prefere observar de longe.

O problema não é cautela. É seletividade. Para uns, investigação sem descanso. Para outros, silêncio estratégico. No discurso, a CPMI é técnica. Na prática, a política decide quem merece indignação e quem ganha tempo.

No meio do barulho entre Damares e Malafaia, a ausência de quem deveria conduzir o debate com isenção vira a principal notícia. Porque, em Brasília, quando o silêncio é conveniente, ele também é uma escolha.